Práticas abusivas são condutas do fornecedor que se aproveitam da posição mais frágil do consumidor e que o Código de Defesa do Consumidor (CDC) proíbe expressamente. As mais comuns são a venda casada, o envio de produto ou serviço sem pedido, o serviço feito sem orçamento, o aumento de preço sem justa causa, o reajuste por índice diferente do contratado e a pressão para contratar crédito. A lista do art. 39 do CDC é exemplificativa: outras condutas desleais também podem ser consideradas abusivas.
Em resumo
- O art. 39 do CDC proíbe, “dentre outras práticas abusivas”, a venda casada, o envio de produto sem solicitação, o serviço sem orçamento e a elevação de preço sem justa causa.
- Cláusulas contratuais abusivas são nulas de pleno direito (CDC, art. 51), mas, em regra, o restante do contrato continua valendo.
- Produto ou serviço enviado sem pedido equipara-se a amostra grátis, sem obrigação de pagamento (CDC, art. 39, parágrafo único).
- O STJ entende que o consumidor não pode ser obrigado a contratar seguro com o banco ou com a seguradora indicada por ele (Súmula 473 e Tema 972).
- Desde a Lei 14.181/2021, o CDC também proíbe assediar ou pressionar o consumidor para contratar crédito, especialmente idosos e pessoas em vulnerabilidade agravada.
- O consumidor pode reclamar no SAC, no Consumidor.gov.br, no Procon e no Juizado Especial Cível.
O que é prática abusiva segundo o Código de Defesa do Consumidor?
Prática abusiva é a conduta comercial que desrespeita a boa-fé e o equilíbrio entre fornecedor e consumidor, na oferta, na contratação ou depois dela, na cobrança e no atendimento. A proteção contra essas condutas é um direito básico do consumidor:
“IV – a proteção contra a publicidade enganosa e abusiva, métodos comerciais coercitivos ou desleais, bem como contra práticas e cláusulas abusivas ou impostas no fornecimento de produtos e serviços;” (CDC, art. 6º)
O CDC trata do tema em dois planos. O primeiro é o das práticas, comportamentos do fornecedor no mercado, reunidos principalmente no art. 39. O segundo é o das cláusulas, regras do contrato que colocam o consumidor em desvantagem exagerada, previstas no art. 51.
Quais são as práticas abusivas previstas no art. 39 do CDC?
O caput do art. 39 deixa claro que a lista não é fechada:
“Art. 39. É vedado ao fornecedor de produtos ou serviços, dentre outras práticas abusivas:”
Os incisos mais frequentes no dia a dia do consumidor estão no quadro a seguir, com o texto literal da lei.
| Prática | Texto do CDC | Exemplo comum |
|---|---|---|
| Venda casada e limite quantitativo | “I – condicionar o fornecimento de produto ou de serviço ao fornecimento de outro produto ou serviço, bem como, sem justa causa, a limites quantitativos;” | Exigir a contratação de seguro ou de título de capitalização para liberar um empréstimo |
| Envio sem pedido | “III – enviar ou entregar ao consumidor, sem solicitação prévia, qualquer produto, ou fornecer qualquer serviço;” | Cartão de crédito ou pacote de serviços ativado sem solicitação |
| Aproveitamento da fragilidade | “IV – prevalecer-se da fraqueza ou ignorância do consumidor, tendo em vista sua idade, saúde, conhecimento ou condição social, para impingir-lhe seus produtos ou serviços;” | Venda insistente a idoso que não compreende o produto |
| Vantagem excessiva | “V – exigir do consumidor vantagem manifestamente excessiva;” | Multa desproporcional por cancelamento |
| Serviço sem orçamento | “VI – executar serviços sem a prévia elaboração de orçamento e autorização expressa do consumidor, ressalvadas as decorrentes de práticas anteriores entre as partes;” | Oficina que executa reparo não autorizado e cobra por ele |
| Preço sem justa causa | “X – elevar sem justa causa o preço de produtos ou serviços.” | Aumento abrupto de itens essenciais em situação de emergência |
| Reajuste irregular | “XIII – aplicar fórmula ou índice de reajuste diverso do legal ou contratualmente estabelecido.” | Mensalidade reajustada por índice diferente do previsto |
Venda casada
A venda casada é a prática abusiva mais conhecida. Ela ocorre quando o fornecedor só entrega o que o consumidor quer se ele levar também outro produto ou serviço. O inciso I proíbe ainda o limite de quantidade sem justa causa, como impor uma compra mínima ou máxima que não tenha razão objetiva.
No setor financeiro, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) tem dois entendimentos importantes. No financiamento habitacional, a Súmula 473 estabelece: “O mutuário do SFH não pode ser compelido a contratar o seguro habitacional obrigatório com a instituição financeira mutuante ou com a seguradora por ela indicada.” Para os contratos bancários em geral, a Segunda Seção fixou, no julgamento do REsp 1.639.259/SP (Tema 972 dos recursos repetitivos, julgado em 12/12/2018), a tese de que “Nos contratos bancários em geral, o consumidor não pode ser compelido a contratar seguro com a instituição financeira ou com seguradora por ela indicada.”
O seguro pode ser oferecido; o que não se admite é condicionar o crédito à contratação com a própria instituição ou com a seguradora que ela escolher. Sobre o financiamento de imóveis, veja também o que fazer em caso de inadimplência no financiamento imobiliário.
Produto ou serviço enviado sem pedido
Quando o fornecedor envia produto ou presta serviço que o consumidor não pediu, a consequência está no próprio art. 39:
“Parágrafo único. Os serviços prestados e os produtos remetidos ou entregues ao consumidor, na hipótese prevista no inciso III, equiparam-se às amostras grátis, inexistindo obrigação de pagamento.”
O envio de cartão de crédito sem solicitação tem súmula específica no STJ (Súmula 532): “Constitui prática comercial abusiva o envio de cartão de crédito sem prévia e expressa solicitação do consumidor, configurando-se ato ilícito indenizável e sujeito à aplicação de multa administrativa.” Se a situação gerou cobrança, veja o que fazer em casos de cobrança indevida.
Serviço sem orçamento
Nos serviços, o fornecedor deve apresentar orçamento prévio, com mão de obra, materiais, condições de pagamento e datas de início e término (CDC, art. 40). Salvo estipulação em contrário, o orçamento vale por 10 dias, e, uma vez aprovado, “obriga os contraentes e somente pode ser alterado mediante livre negociação das partes” (art. 40, § 2º).
Publicidade enganosa também é prática abusiva?
A publicidade enganosa e a abusiva têm regras próprias no CDC, mas integram o mesmo sistema de proteção contra condutas desleais. O art. 37 dispõe:
“Art. 37. É proibida toda publicidade enganosa ou abusiva.
§ 1° É enganosa qualquer modalidade de informação ou comunicação de caráter publicitário, inteira ou parcialmente falsa, ou, por qualquer outro modo, mesmo por omissão, capaz de induzir em erro o consumidor a respeito da natureza, características, qualidade, quantidade, propriedades, origem, preço e quaisquer outros dados sobre produtos e serviços.”
A omissão também engana: “a publicidade é enganosa por omissão quando deixar de informar sobre dado essencial do produto ou serviço” (art. 37, § 3º). Já a abusiva é, entre outras, a discriminatória, a que explora o medo ou se aproveita da deficiência de julgamento da criança (art. 37, § 2º).
Quais cláusulas contratuais são consideradas abusivas?
O art. 51 do CDC lista cláusulas que são “nulas de pleno direito”, ou seja, não produzem efeito, ainda que o consumidor tenha assinado o contrato. A lista também é exemplificativa (“entre outras”). As hipóteses mais frequentes:
| Cláusula nula | Inciso do art. 51 |
|---|---|
| Exonera ou atenua a responsabilidade do fornecedor por vícios do produto ou serviço | I |
| Retira do consumidor a opção de reembolso da quantia já paga, nos casos previstos no CDC | II |
| Estabelece obrigações iníquas, abusivas ou que coloquem o consumidor em desvantagem exagerada | IV |
| Inverte o ônus da prova em prejuízo do consumidor | VI |
| Determina a utilização compulsória de arbitragem | VII |
| Permite ao fornecedor variar o preço de maneira unilateral | X |
| Autoriza o fornecedor a cancelar o contrato sozinho, sem igual direito ao consumidor | XI |
| Obriga o consumidor a ressarcir custos de cobrança, sem igual direito contra o fornecedor | XII |
| Autoriza o fornecedor a modificar unilateralmente o contrato depois de celebrado | XIII |
| Condiciona ou limita o acesso ao Poder Judiciário | XVII |
O inciso IV é a cláusula geral do sistema, e o § 1º do art. 51 explica quando a vantagem do fornecedor se presume exagerada, por exemplo quando “se mostra excessivamente onerosa para o consumidor, considerando-se a natureza e conteúdo do contrato, o interesse das partes e outras circunstâncias peculiares ao caso” (art. 51, § 1º, III).
A cláusula abusiva anula todo o contrato?
Em regra, não. A lei preserva o restante do contrato:
“§ 2° A nulidade de uma cláusula contratual abusiva não invalida o contrato, exceto quando de sua ausência, apesar dos esforços de integração, decorrer ônus excessivo a qualquer das partes.” (CDC, art. 51)
Na prática, a cláusula abusiva é afastada e o contrato segue com as demais condições. O CDC também assegura o direito de pedir a modificação de cláusulas que estabeleçam prestações desproporcionais ou a revisão em razão de fatos supervenientes que as tornem excessivamente onerosas (art. 6º, V).
O que mudou com a Lei do Superendividamento?
A Lei 14.181/2021 incluiu no CDC regras sobre crédito responsável e prevenção do superendividamento. O conceito legal é o seguinte:
“§ 1º Entende-se por superendividamento a impossibilidade manifesta de o consumidor pessoa natural, de boa-fé, pagar a totalidade de suas dívidas de consumo, exigíveis e vincendas, sem comprometer seu mínimo existencial, nos termos da regulamentação.” (CDC, art. 54-A)
A lei também criou novas proibições na oferta de crédito, publicitária ou não. Entre elas:
“IV – assediar ou pressionar o consumidor para contratar o fornecimento de produto, serviço ou crédito, principalmente se se tratar de consumidor idoso, analfabeto, doente ou em estado de vulnerabilidade agravada ou se a contratação envolver prêmio;” (CDC, art. 54-C)
O mesmo artigo proíbe indicar que o crédito pode ser concluído sem consulta a serviços de proteção ao crédito ou sem avaliação da situação financeira do consumidor (inciso II) e ocultar ou dificultar a compreensão sobre os ônus e os riscos da contratação (inciso III).
Para o consumidor que já está superendividado, a lei prevê o processo de repactuação de dívidas: a requerimento do consumidor pessoa natural, o juiz pode instaurar audiência conciliatória com todos os credores, na qual o consumidor apresenta plano de pagamento “com prazo máximo de 5 (cinco) anos, preservados o mínimo existencial” (CDC, art. 104-A). Ficam de fora, entre outras, as dívidas de crédito com garantia real, de financiamentos imobiliários e de crédito rural (art. 104-A, § 1º). O mínimo existencial está definido no Decreto 11.150/2022, que, na redação dada pelo Decreto 11.567/2023, o fixa como “a renda mensal do consumidor pessoa natural equivalente a R$ 600,00 (seiscentos reais)” (art. 3º).
Quais são as consequências para o fornecedor?
As consequências podem ser civis, como a nulidade da cláusula, a devolução de valores e a reparação de danos (CDC, arts. 6º, VI, e 51), e administrativas, como multa e apreensão do produto, aplicadas pelos órgãos de defesa do consumidor “sem prejuízo das de natureza civil, penal e das definidas em normas específicas” (art. 56). O consumidor ou entidade que o represente também pode pedir ao Ministério Público que proponha ação para declarar a nulidade de cláusula contrária ao CDC (art. 51, § 4º). Cada situação depende de prova e da análise do caso concreto.
Como reclamar de uma prática abusiva?
Primeiro, reúna as provas: contrato, anúncio, nota fiscal, fatura, protocolos, mensagens e capturas de tela com data. Depois, reclame por escrito ao fornecedor e, se não houver solução, use os canais públicos e, por fim, a via judicial.
| Canal | Como funciona | Base |
|---|---|---|
| SAC e ouvidoria | Primeira tentativa, com protocolo | Contrato e normas setoriais |
| Consumidor.gov.br | Serviço público e gratuito; a empresa participante tem até 10 dias para responder | Portal oficial Consumidor.gov.br |
| Procon | Órgão público de defesa do consumidor, integrante do Sistema Nacional de Defesa do Consumidor | CDC, art. 105 |
| Juizado Especial Cível | Causas de até 40 salários mínimos; até 20 salários mínimos, sem obrigatoriedade de advogado | Lei 9.099/1995, arts. 3º, I, e 9º |
Segundo o próprio portal, o Consumidor.gov.br “não substitui o serviço prestado pelos Órgãos de Defesa do Consumidor”. Em Londrina, o consumidor pode recorrer ao Procon municipal e aos Juizados Especiais Cíveis da Comarca de Londrina, do Tribunal de Justiça do Paraná (TJPR). O passo a passo está em como registrar uma reclamação no Procon. Se o problema envolver defeito do produto, veja também os direitos do consumidor em caso de produto com defeito.
Perguntas frequentes sobre práticas abusivas
A lista de práticas abusivas do art. 39 do CDC é completa?
Não. O caput do art. 39 usa a expressão “dentre outras práticas abusivas”, o que significa que a lista é exemplificativa. Condutas não descritas na lei também podem ser consideradas abusivas quando contrariarem a boa-fé e o equilíbrio da relação de consumo.
O banco pode exigir que eu contrate seguro para liberar um empréstimo?
O banco pode oferecer o seguro, mas não pode obrigar o consumidor a contratá-lo com a própria instituição ou com seguradora indicada por ela. Esse é o entendimento do STJ no Tema 972 e, no financiamento habitacional do SFH, na Súmula 473.
Recebi um produto que não pedi. Preciso pagar ou devolver?
Não há obrigação de pagamento: o produto ou serviço enviado sem solicitação prévia equipara-se a amostra grátis (CDC, art. 39, III e parágrafo único). Se houver cobrança, conteste por escrito e guarde o protocolo.
Assinei um contrato com cláusula abusiva. Ela vale?
Não. As cláusulas do art. 51 do CDC são nulas de pleno direito, mesmo com a assinatura do consumidor. Em regra, apenas a cláusula é afastada e o restante do contrato continua válido (art. 51, § 2º).
O que é assédio na oferta de crédito?
É a pressão para que o consumidor contrate produto, serviço ou crédito, proibida pelo art. 54-C, IV, do CDC, especialmente quando o consumidor é idoso, analfabeto, doente ou está em vulnerabilidade agravada, ou quando a contratação envolve prêmio.
Preciso de advogado para reclamar de uma prática abusiva?
Para reclamar no SAC, no Consumidor.gov.br e no Procon, não. No Juizado Especial Cível, a assistência de advogado é facultativa nas causas de até 20 salários mínimos (Lei 9.099/1995, art. 9º).
Quando buscar orientação jurídica
Quando a prática abusiva se repete, envolve contrato de valor relevante, crédito ou negativação, ou quando a empresa não resolve a reclamação, a análise dos documentos ajuda a identificar se há cláusula nula, valores a restituir ou dano a reparar, e qual o canal adequado. Antes de qualquer providência, vale reunir contratos, anúncios, faturas, protocolos e mensagens em ordem cronológica. O Hulbert & Pozzobom Advogados Associados atua em Direito do Consumidor em Londrina e região; os canais de atendimento estão na página de contato do escritório.
Autoria: Dr. Herik Hulbert de Almeida, advogado, OAB/PR 103.367, sócio do Hulbert & Pozzobom Advogados Associados (Londrina/PR).
Revisão jurídica: Dra. Raquel Jandre Pozzobom, OAB/PR 108.847.
Publicado originalmente em 31/07/2026. Atualizado em 14/10/2026.
Conteúdo informativo, elaborado com apoio de ferramentas digitais e revisado por advogado. Não substitui a análise individual de cada situação.
Fontes consultadas (acesso em 13/10/2026)
- Código de Defesa do Consumidor (Lei 8.078/1990), texto compilado: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l8078compilado.htm
- Lei 14.181/2021 (superendividamento): https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2021/lei/l14181.htm
- Decreto 11.150/2022 (mínimo existencial), com a redação do Decreto 11.567/2023: https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2022/decreto/d11150.htm
- Lei 9.099/1995 (Juizados Especiais): https://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9099.htm
- STJ, Súmula 473: https://scon.stj.jus.br/SCON/sumstj/toc.jsp?livre=%27473%27.num.&O=JT
- STJ, Súmula 532: https://scon.stj.jus.br/SCON/sumstj/toc.jsp?livre=%27532%27.num.&O=JT
- STJ, Informativo de Jurisprudência 639 (REsp 1.639.259/SP, Tema 972, Segunda Seção, julgado em 12/12/2018): https://www.stj.jus.br/docs_internet/informativos/PDF/Inf0639.pdf
- Consumidor.gov.br, Conheça o Consumidor.gov.br: https://www.consumidor.gov.br/pages/conteudo/publico/1

Advogado inscrito na OAB/PR sob o nº 103.367 e sócio do Hulbert & Pozzobom Advogados Associados, em Londrina/PR, Data Protection Officer (DPO) e consultor em Privacidade e Proteção de Dados, com sólida experiência na advocacia preventiva e contenciosa em diversas áreas, incluindo Direito do Trabalho, Direito Previdenciário, Direito Civil, Direito do Consumidor, Direito de Família e Sucessões, Contratos, e Compliance. Também atua como gestor e elaborador de planos de implementação e adequação às normas da Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).


