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O que é o fator previdenciário e como ele afeta o valor da aposentadoria?

Fator previdenciário: o que é, quando ainda se aplica e como afeta a aposentadoria

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O fator previdenciário é um multiplicador aplicado à média salarial que combina a idade, o tempo de contribuição e a expectativa de sobrevida do segurado no momento da aposentadoria. Quanto mais cedo a aposentadoria, menor o fator e, em regra, menor o benefício. Ao contrário do que se costuma dizer, ele não acabou com a Reforma da Previdência: continua obrigatório na regra de transição do pedágio de 50% e no direito adquirido à aposentadoria por tempo de contribuição.

Em resumo

  • O fator foi criado pela Lei 9.876/1999 e está no art. 29, §§ 7º a 9º, da Lei 8.213/1991; o Supremo Tribunal Federal (STF) confirmou sua constitucionalidade no Tema 1.091 da repercussão geral.
  • A fórmula usa a idade, o tempo de contribuição, a alíquota de 0,31 e a expectativa de sobrevida da tábua do IBGE, hoje a de 2024.
  • Mulheres somam 5 anos ao tempo de contribuição no cálculo; professores e professoras da educação básica, 5 e 10 anos (art. 29, § 9º).
  • Depois da Emenda Constitucional (EC) 103/2019, o fator é obrigatório no pedágio de 50% (art. 17) e na aposentadoria por tempo de contribuição com requisitos cumpridos até 13/11/2019, salvo quem atingiu 86 ou 96 pontos.
  • Na aposentadoria por idade com direito adquirido e na da pessoa com deficiência, o fator só se aplica se aumentar o valor.

O que é o fator previdenciário?

É um índice criado em 1999 para ajustar o valor da aposentadoria ao tempo provável de recebimento. A Lei 8.213/1991, com a redação da Lei 9.876/1999, o define assim:

“§ 7o O fator previdenciário será calculado considerando-se a idade, a expectativa de sobrevida e o tempo de contribuição do segurado ao se aposentar, segundo a fórmula constante do Anexo desta Lei.” (Lei 8.213/1991, art. 29)

A expectativa de sobrevida vem do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE):

“§ 8o Para efeito do disposto no § 7o, a expectativa de sobrevida do segurado na idade da aposentadoria será obtida a partir da tábua completa de mortalidade construída pela Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE, considerando-se a média nacional única para ambos os sexos.” (Lei 8.213/1991, art. 29)

A validade do mecanismo foi confirmada pelo STF em 2020, no Recurso Extraordinário (RE) 1.221.630, com a seguinte tese: “É constitucional o fator previdenciário previsto no artigo 29, caput, incisos e parágrafos, da Lei 8.213/1991, com a redação dada pelo artigo 2º da Lei 9.876/1999” (Tema 1.091, segundo notícia oficial do STF de 08/06/2020).

Como o fator previdenciário é calculado?

A fórmula consta do Anexo da Lei 9.876/1999 e do art. 188-E, § 2º, do Decreto 3.048/1999:

f = (Tc x a ÷ Es) x [1 + (Id + Tc x a) ÷ 100]

Sigla Significado Observação
f Fator previdenciário Multiplica a média salarial
Tc Tempo de contribuição até a aposentadoria Mulheres somam 5 anos; professores, 5; professoras, 10
a Alíquota de contribuição Fixada em 0,31
Es Expectativa de sobrevida na idade da aposentadoria Tábua completa de mortalidade do IBGE
Id Idade na data da aposentadoria Considerada em anos e frações

Os acréscimos ao tempo de contribuição estão na lei:

“§ 9o Para efeito da aplicação do fator previdenciário, ao tempo de contribuição do segurado serão adicionados: I – cinco anos, quando se tratar de mulher; II – cinco anos, quando se tratar de professor que comprove exclusivamente tempo de efetivo exercício das funções de magistério na educação infantil e no ensino fundamental e médio; III – dez anos, quando se tratar de professora que comprove exclusivamente tempo de efetivo exercício das funções de magistério na educação infantil e no ensino fundamental e médio.” (Lei 8.213/1991, art. 29)

Qual tábua do IBGE vale em 2026?

A tábua completa de mortalidade de 2024, divulgada pelo IBGE em 2025, que apontou expectativa de vida ao nascer de 76,6 anos. O IBGE a publica anualmente, até 1º de dezembro, por força do art. 2º do Decreto 3.266/1999, e os pedidos feitos a partir da publicação de nova tábua já usam a nova expectativa (Decreto 3.048/1999, art. 188-E, § 4º). A tábua de 2025 deve sair até 01/12/2026.

Idade Expectativa de sobrevida (tábua IBGE 2024, ambos os sexos)
50 anos 30,9 anos
55 anos 26,6 anos
58 anos 24,2 anos
60 anos 22,6 anos
62 anos 21,0 anos
65 anos 18,8 anos

Como a expectativa de vida tende a subir, o fator calculado para a mesma idade e o mesmo tempo de contribuição tende a cair de um ano para outro.

Quanto o fator reduz ou aumenta a aposentadoria?

Depende da combinação entre idade e tempo de contribuição. Fator menor que 1 reduz o benefício; maior que 1, aumenta. Os exemplos abaixo são hipotéticos, aplicam a fórmula com a tábua de 2024 em idades exatas e servem apenas para ilustrar; o cálculo oficial considera as frações de idade e de tempo.

Perfil hipotético Tc considerado Fator aproximado Efeito sobre a média
Mulher, 55 anos, 30 anos e 6 meses de contribuição 35,5 anos 0,687 Redução de cerca de 31%
Homem, 58 anos, 36 anos de contribuição 36 anos 0,780 Redução de cerca de 22%
Mulher, 60 anos, 30 anos de contribuição 35 anos 0,820 Redução de cerca de 18%
Homem, 60 anos, 36 anos de contribuição 36 anos 0,845 Redução de cerca de 15%
Homem, 65 anos, 40 anos de contribuição 40 anos 1,170 Aumento de cerca de 17%

O salário de benefício não pode ser inferior a um salário mínimo nem superior ao teto do Regime Geral de Previdência Social (Lei 8.213/1991, art. 29, § 2º).

O fator previdenciário ainda existe depois da Reforma da Previdência?

Existe, mas em situações específicas. A EC 103/2019, em vigor desde 13/11/2019, criou nova forma de cálculo para a maioria das aposentadorias: 60% da média de todos os salários desde julho de 1994, mais 2 pontos percentuais por ano acima de 15 anos de contribuição (mulheres) ou 20 anos (homens) (art. 26). Nessas regras, não há fator. Ele continua, porém, nos casos abaixo:

Situação Fator previdenciário Base legal
Pedágio de 50% (transição) Obrigatório EC 103/2019, art. 17, parágrafo único; Decreto 3.048/1999, art. 188-K, § 3º
Aposentadoria por tempo de contribuição com requisitos cumpridos até 13/11/2019 Obrigatório, salvo se atingidos 86 pontos (mulher) ou 96 pontos (homem) Lei 8.213/1991, art. 29-C; Decreto 3.048/1999, art. 188-E, I e § 8º
Aposentadoria por idade com requisitos cumpridos até 13/11/2019 Só se aumentar o valor Lei 9.876/1999, art. 7º; Decreto 3.048/1999, art. 188-E, § 7º
Aposentadoria da pessoa com deficiência Só se aumentar o valor Decreto 3.048/1999, art. 188-E, § 6º
Regras dos pontos, idade progressiva, pedágio de 100%, por idade e permanente Não se aplica EC 103/2019, art. 26

Para conhecer os requisitos de cada regra de transição, veja os requisitos para aposentadoria por idade e por tempo de contribuição.

Como funciona o pedágio de 50%?

É a única regra de transição da Reforma sem idade mínima, e a contrapartida é o fator previdenciário. Ela vale para quem, em 13/11/2019, estava a menos de 2 anos de se aposentar:

“Art. 17. Ao segurado filiado ao Regime Geral de Previdência Social até a data de entrada em vigor desta Emenda Constitucional e que na referida data contar com mais de 28 (vinte e oito) anos de contribuição, se mulher, e 33 (trinta e três) anos de contribuição, se homem, fica assegurado o direito à aposentadoria quando preencher, cumulativamente, os seguintes requisitos: I – 30 (trinta) anos de contribuição, se mulher, e 35 (trinta e cinco) anos de contribuição, se homem; e II – cumprimento de período adicional correspondente a 50% (cinquenta por cento) do tempo que, na data de entrada em vigor desta Emenda Constitucional, faltaria para atingir 30 (trinta) anos de contribuição, se mulher, e 35 (trinta e cinco) anos de contribuição, se homem.” (EC 103/2019)

O parágrafo único do mesmo artigo determina que o valor será a média dos salários “multiplicada pelo fator previdenciário”. O regulamento acrescenta que, nessa regra, a aplicação do fator “é obrigatória”, sem a opção dos pontos do art. 29-C da Lei 8.213/1991 (Decreto 3.048/1999, art. 188-K, § 3º).

Exemplo hipotético: homem com 34 anos de contribuição em 13/11/2019 precisava de mais 1 ano; com o pedágio de 6 meses, pode se aposentar com 35 anos e 6 meses de contribuição. Se fizer isso aos 57 anos, o fator tende a reduzir bastante o valor. Por isso, antes de pedir, convém comparar o resultado com outras regras que o segurado já cumpra ou venha a cumprir em pouco tempo.

O que é a regra 86/96 e quem ainda pode usar?

Antes da Reforma, o art. 29-C da Lei 8.213/1991, incluído pela Lei 13.183/2015, permitia afastar o fator na aposentadoria por tempo de contribuição quando a soma da idade com o tempo de contribuição atingisse uma pontuação mínima:

“Art. 29-C. O segurado que preencher o requisito para a aposentadoria por tempo de contribuição poderá optar pela não incidência do fator previdenciário no cálculo de sua aposentadoria, quando o total resultante da soma de sua idade e de seu tempo de contribuição, incluídas as frações, na data de requerimento da aposentadoria, for: I – igual ou superior a noventa e cinco pontos, se homem, observando o tempo mínimo de contribuição de trinta e cinco anos; ou II – igual ou superior a oitenta e cinco pontos, se mulher, observado o tempo mínimo de contribuição de trinta anos.”

A pontuação subiu para 86 (mulher) e 96 (homem) em 31/12/2018. Segundo o Decreto 3.048/1999 (art. 188-E, § 8º, II), quem atingiu essa pontuação, com 30 ou 35 anos de contribuição, entre 31/12/2018 e 13/11/2019 pode se aposentar a qualquer tempo sem o fator, com base no direito adquirido. Quem completou só o tempo de contribuição até 13/11/2019, sem os pontos, também tem direito adquirido, mas com o fator.

Como saber se o fator entrou no cálculo da minha aposentadoria?

A carta de concessão e a memória de cálculo, disponíveis no Meu INSS, mostram a média salarial, o fator aplicado e a renda mensal inicial. O INSS deve conceder o benefício mais vantajoso a que o segurado tenha direito (Decreto 3.048/1999, art. 176-E), mas a conferência individual continua recomendável.

  • Entre no Meu INSS com a conta gov.br e consulte o benefício concedido.
  • Baixe a carta de concessão e a memória de cálculo.
  • Confira a regra aplicada, a idade e o tempo de contribuição considerados e o valor do fator.
  • Compare com o extrato do Cadastro Nacional de Informações Sociais (CNIS), para identificar períodos ou salários ausentes.

Se o pedido foi negado, o recurso à Junta de Recursos do Conselho de Recursos da Previdência Social deve ser apresentado em 30 dias da ciência da decisão; veja como recorrer do indeferimento pelo INSS. Para revisar o ato de concessão, o prazo de decadência é, em regra, de 10 anos, contados do primeiro dia do mês seguinte ao do recebimento da primeira prestação (Lei 8.213/1991, art. 103, I).

Perguntas frequentes sobre o fator previdenciário

O fator previdenciário acabou com a Reforma da Previdência?

Não. Ele deixou de existir na maioria das regras, mas é obrigatório no pedágio de 50% (EC 103/2019, art. 17) e na aposentadoria por tempo de contribuição com requisitos cumpridos até 13/11/2019, salvo quem atingiu 86 ou 96 pontos.

O fator previdenciário sempre reduz a aposentadoria?

Não. Quando a idade e o tempo de contribuição são altos, o fator pode ser maior que 1 e aumentar o valor. Na aposentadoria por idade com direito adquirido, ele só é aplicado se for favorável (Lei 9.876/1999, art. 7º).

Por que a mulher soma 5 anos no cálculo do fator?

Porque a lei determina esse acréscimo ao tempo de contribuição da mulher, o que eleva o fator em relação ao de um homem com a mesma idade e o mesmo tempo (Lei 8.213/1991, art. 29, § 9º, I).

Qual tábua do IBGE é usada em 2026?

A tábua completa de mortalidade de 2024, divulgada em 2025. Quem pedir a aposentadoria depois da publicação da tábua de 2025, prevista para até 01/12/2026, terá o cálculo com a nova expectativa (Decreto 3.048/1999, art. 188-E, § 4º).

Vale a pena se aposentar pelo pedágio de 50%?

Depende da idade, do tempo de contribuição e das outras regras disponíveis. Como o fator costuma reduzir o valor de quem se aposenta mais jovem, a comparação entre as regras deve ser feita antes do pedido.

O fator previdenciário é constitucional?

Sim. O STF fixou, no Tema 1.091 da repercussão geral, que “É constitucional o fator previdenciário previsto no artigo 29, caput, incisos e parágrafos, da Lei 8.213/1991, com a redação dada pelo artigo 2º da Lei 9.876/1999”.

Quando buscar orientação jurídica

A escolha entre o pedágio de 50%, as demais regras de transição e o direito adquirido depende de datas, do extrato do CNIS e do histórico de salários, e alguns meses de diferença podem mudar a regra aplicável e o efeito do fator. Antes de pedir a aposentadoria, vale reunir o CNIS, as Carteiras de Trabalho e os carnês e simular as regras possíveis; depois da concessão, conferir a memória de cálculo. O Hulbert & Pozzobom Advogados Associados atua em Direito Previdenciário em Londrina e região; os canais de atendimento estão na página de contato do escritório. Para atividades com exposição a agentes nocivos, veja também como funciona a aposentadoria especial.


Autoria: Dr. Herik Hulbert de Almeida, advogado, OAB/PR 103.367, sócio do Hulbert & Pozzobom Advogados Associados (Londrina/PR).
Revisão jurídica: Dra. Geni Romero Jandre Pozzobom, OAB/PR 16.933.
Publicado originalmente em 31/07/2026. Atualizado em 14/10/2026.
O que mudou nesta atualização: texto reescrito no padrão de artigo do escritório, com fontes oficiais conferidas.
Conteúdo informativo, elaborado com apoio de ferramentas digitais e revisado por advogado. Não substitui a análise individual de cada situação.

Fontes consultadas (acesso em 13/10/2026)

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